NOSSAS AVIADORAS PIONEIRAS


Como vivia e quais eram as ambições de uma jovem aqui no Brasil, no início dos anos 1920? Mesmo entre as que haviam fequentado ou ainda frequentavam escola, poucas almejavam uma carreira independente do casamento. Podiam exercer habilidades em leitura, música, pintura e nas chamadas prendas domésticas - e também divertir-se com cinema, bailes e outros eventos sociais. Apesar disto, para poucas ainda faltava “algo mais” que, no caso destas três pioneiras da nossa aviação, se traduziria em...voar!

THEREZA de MARZO



Em 3 de agosto de 1903, nascia em São Paulo Thereza, filha do casal italiano Maria e Affonso de Marzo. A grande família, de sete filhos, morava numa casa confortável no que hoje é chamado de centro da cidade. Além da escola primária, ela fez o curso de preparação para o lar na Escola Profissional Feminina do Braz, onde se formou em 1919.


Suas atividades passaram então a ser domésticas e, em casa, o que mais a atraía eram a máquina de costura – que manejava muito bem – e a janela da frente. Dali, ela avistava o Vale do Anhangabaú e, acima, o céu, por onde transitavam pequenos aviões que a fascinavam. Foi quando decidiu, como contou em 1983 à aviadora Lucy Lúpia, que queria pilotar “uma máquina daquelas”.


Seu pai não a apoiou mas, graças à intercessão materna, também não a proibiu. Thereza já sabia da existência de uma escola de aviação no bairro dos Jardins, o Aeródromo Brasil, dirigida por dois irmãos italianos, Enrico e Giovanni Robba. Tomou um bonde e foi até lá negociar com eles. Por ser ela a primeira mulher a se apresentar para o curso, deram-lhe um desconto: 600 mil réis por dez aulas. Combinado. Pagou com o que apurou ao rifar sua vitrola.


Como os Robba viajassem muito se apresentando em shows aéreos, ela passou a ter aulas com o alemão Fritz Roesler, que fora piloto de caça condecorado durante a Primeira Guerra Mundial. E foi seu novo instrutor, que mais tarde se tornaria marido, quem a preparou para a prova marcada para 8 de abril de 1922, perante representantes do Aeroclube do Brasil e da Fedération Aéronautique International (FAI).


Naquele dia, a bordo de seu Caudron G-3 de 120hp e em trajes da época (touca e óculos especiais, blusa de gola rolê, culote e botas de cano alto), Thereza decolou e, durante 40 minutos, executou habilmente todas as manobras, aterrissando vitoriosa na estreita e curta pista do aeródromo, diante da comissão julgadora.Com isto, tornou-se a primeira mulher brasileira a receber o diploma de piloto-aviador internacional, com o brevê n

º 76 do Aeroclube do Brasil.


Dias depois, efetuou o primeiro reide para a cidade de Santos, aonde voltou a convite do prefeito para homenagear, sobrevoando, a estátua de Bartolomeu de Gusmão(o “Padre Voador”) e a dos Irmãos Andradas. Neste dia, fez passar uma lista de subscrição para a construção de um hangar para seu avião – que foi construído no bairro do Ipiranga, onde foi aberta uma Escola de Aviação. Também foi a Campinas (SP) e ao Rio de Janeiro, para recepcionar a chegada dos pilotos portugueses Sacadura Cabral e Gago Coutinho, que haviam completado a primeira travessia aérea do Atlântico Sul.


Em meio a constantes homenagens, Thereza criou as “Tardes de Aviação”, em que efetuava voos com passageiros. Foram mais de 350 horas registradas oficialmente, além de muitas outras não computadas.


Em 1926, teve grande repercussão seu casamento com Fritz Roesler, que lhe trouxe “muita alegria e felicidade”, segundo confessou a Lucy Lúpia, “durante 45 anos”.


Porém, a partir de então, disse, Fritz “me afastou da aviação”; eram altos os custos do combustível do avião, mas “eu também não o contrariava em nada”. Embora acompanhasse e incentivasse as atividades do marido - que, além de habilitar pilotos de avião e de planador, foi um dos três fundadores da Empresa Aeronáutica Ypiranga (1931), construtora dos primeiros cinco aviões Paulistinha, os EA 201; mais tarde, foi um dos fundadores da VASP. Roesler faleceu em 1971 e Thereza em 1986, após receber as mais altas condecorações da Fundação Santos-Dumont e do Ministério da Aeronáutica.



ANÉSIA PINHEIRO MACHADO




Enquanto Thereza ia se familiarizando em 1921 com a pilotagem, uma outra jovem – Anésia Pinheiro Machado, nascida em Itaí (SP) em 05/06/1904 – também ensaiava para tirar seu brevê. Foi então acertado e lavrado em ata que ambas fariam o exame no mesmo dia: Thereza, como começou o curso antes de Anésia, compareceria ao Aeródromo Brasil pela manhã e Anésia à tarde, no Campo de Aviação de Santo Amaro (ou Brooklin).


Uma mudança no tempo levou a comissão a transferir para o dia seguinte a prova de Anésia, que relutou mas se apresentou à mesma banca no dia 9. Saiu-se bem na prova no ar, mas durante a aterrissagem houve um acidente com seu trem de pouso, o que não a impediu de ser aprovada e receber o brevê nº 77.


Mesmo tendo sido com justiça atribuído a Thereza o título de primeira aviadora brevetada no Brasil, Anésia não se conformou e, na época, como mostra o escritor Paulo Duarte, formaram-se entre os simpatizantes da aviação dois grupos antagônicos - uns defendiam Thereza, outros Anésia.


Mas sem dúvida a carreira desta última é que foi ganhando fôlego com o tempo. E tudo começou numa tarde de setembro de 1920, quando o ás da aviação americano Orthon Hoover se preparava para uma exibição aérea em Itapetininga (SP) e foi abordado no campo de pouso por uma jovem de 16 anos que, a pretexto de já falar inglês, ofereceu-se para ajudá-lo. Foi então que Anésia obteve seu batismo no ar a bordo de um Curtiss Oriolle amarelo, de motor alaranjado.


As sensações daquele dia jamais a abandonariam e seriam o motor para que em 1921 a brilhante estudante, de família tradicional mas pai empobrecido, vendesse seus livros e viesse de trem de Itapetininga para a capital paulista com a intenção de aprender a voar.


Trabalhando como vendedora de perfumes na loja Mappin e traduzindo livros em espanhol e em francês, Anésia juntou dinheiro para pagar suas aulas. Em 17 de março de 1922, alçou seu primeiro voo solo e em 9 de abril tornou-se a 2ª brasileira a ser aprovada como piloto de avião. Comprou a prazo um velho Caudron G-3 com que fazia exibições, transportava passageiros e realizava reides semanais a Santos (SP); num desses voos, em 5 de maio, bateu sobre a Serra do Mar o recorde de altitude (4.124 metros).


Era o ano do Centenário da Independência e em homenagem à data Anésia decidiu tentar um reide São Paulo-Rio de Janeiro, seguindo a rota da estrada de ferro. Ao fim de três dias de acidentada viagem, pousou no Campo dos Afonsos, no Rio – onde no dia seguinte recebeu das mãos de Santos-Dumont uma medalha e uma carta de congratulações.


De volta a São Paulo, Anésia ganhou um novo avião, um JN-4 Curtiss – que ficou pouco tempo em seu poder: ela usou o aparelho para, em apoio aos jovens oficiais que lideraram em São Paulo a rebelião de 1924, sobrevoar em Santos as tropas e navios legalistas, colhendo informações; debelado o movimento, ficou presa durante mais de um ano e seu Curtiss passou às mãos da Aviação Naval.


Sem avião, ela se tornou a primeira redatora de aviação do Brasil no jornal carioca O Paiz e depois foi, sucessivamente, datilógrafa, taquígrafa, arquivista e redatora no Ministério da Viação e nas casas legislativas federal e municipal do Rio.


Só em 1939 voltou à atividade aviatória.


Após obter nos EUA, em 1943, licenças de piloto comercial, instrutora de voo, instrutora de voo por instrumentos e instrutora de link trainer, Anésia se tornou instrutora de link trainer dos oficiais da reserva da Aeronáutica na base aérea do Galeão. Aos 47 anos (1951), ela decidiu empreender o primeiro reide transcontinental, entre Rio de Janeiro e Nova York, pela rota do Oceano Pacífico. Para tanto, comprou nos EUA um Ryan Navion Super, de 260 Hp de potência e com ele percorreu, sem incidentes, 17.756 km em 82h25, visitando 15 países e cruzando os Andes em seu retorno pelo Passo de Aconcágua, a uma altitude aproximada de 5.534 metros.


Declarada em 1954 pela Fédération Aéronautique Internationale (FAI) decana mundial da aviação feminina por ter o brevê mais antigo do mundo ainda em atividade de voo, a pioneira viveu até seus quase os 95 anos de idade, falecendo em 10/05/1999.



ADA ROGATO



Acima: Foto autografada por Ada Rogato, dedicada à Thereza de Marzo - São Paulo, 3/9/1944. (Arquivo: Lucita Briza)

Mais de dez anos após as duas primeiras pioneiras brasileiras se brevetarem, nenhuma outra havia surgido no cenário nacional. E, mesmo na cena internacional, poucas - como a americana Amelia Earhart, a francesa Adrienne Bolland e a inglesa Amy Johnson – haviam conquistado o estrelato pilotando um avião.


Por aqui, entre essas poucas estava surgindo Ada (1910-1986), filha dos imigrantes italianos Maria Rosa e Guglielmo Rogato, nascida em São Paulo e que aos sete anos já dizia o que queria ser: aviadora.


Em função de sua carreira como fotógrafo e depois cineasta, entre os anos 1920 e início dos anos 1930 Guglielmo se transferiu com mulher e filha para o Rio de Janeiro e em seguida para Maceió (AL); ao memo tempo, Ada completava os cursos primário e ginásio e, como diz a escritora Adalzira Bittencourt, estudou piano e fez também curso de desenho e pintura, enquanto em casa era treinada nas prendas domésticas. Nem o pai autoritário, nem a mãe alimentavam seus devaneios sobre voar.


Uma reviravolta familiar com a separação dos pais trouxe Ada e Rosa de volta a São Paulo, onde foram morar no bairro de Santana, próximo ao Campo de Marte - que sediava o Clube Paulista de Planadores e o Aeroclube de São Paulo. Ali chegou em 1934 uma missão alemã com seus planadores, cujos pilotos eram então considerados a nata do voo a vela, incluindo sua maior estrela feminina, Hanna Reitsch.


Ada, após assistir às exibições dos volovelistas e conhecer Hanna, decidiu fazer o

curso – que se iniciou numa área construída para tal em Cumbica; assim se tornou em 1935 a primeira piloto de planador da América do Sul, obtendo o brevê “C”, internacionalmente reconhecido. Em 1936, ela solou pela primeira vez um aeroplano, um De Havilland Tiger Moth de 80 Hp, e logo se tornaria a terceira mulher do Brasil a conquistar o brevê de piloto de avião.


Não satisfeita, em 1941 tornou-se a primeira brasileira a receber o brevê de paraquedista - o que lhe garantiu lugar de destaque na Campanha Nacional da Aviação: é que com suas acrobacias aéreas e seus saltos de paraquedas ajudava a atrair público para os recém-fundados aeroclubes que se disseminavam por todo o país.